segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Da escola pública para a melhor universidade da América Latina
O estudante de escola pública pode não acreditar no seu potencial, mas com força de vontade é possível realizar seus sonhos". Essa é a mensagem que traz o jovem Matheus de Aquino, 17 anos, o mais novo calouro do curso de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Após passar boa parte de sua vida acadêmica em escolas públicas e ter feito apenas dois meses de curso preparatório, Matheus foi aprovado nos principais vestibulares do País - além da USP, o candidato recebeu o chamado de "aprovado" nos exames da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (Unesp) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O estudante já fez sua escolha e no próximo dia 17 segue à capital para uma nova etapa de desafios - dessa vez, naquela que é considerada a melhor universidade da América Latina.
O segredo para o feito, conta, é a dedicação. Formado no ensino médio pela Escola Técnica Estadual (Etec) Fernando Prestes, Matheus passou pelo menos seis meses com atenção integral aos estudos. Além das aulas normais de manhã, o aluno frequentava ainda as salas do curso pré-vestibular comunitário do câmpus Sorocaba da UFSCar, que havia começado em março, quando ele ainda cursava o último semestre do técnico em administração na mesma Etec. "Entrei no curso no fim de agosto e peguei somente os últimos dois meses. Por isso, tive que correr atrás das matérias anteriores", afirma. No intervalo entre os estudos, mais estudo: por pelo menos quatro horas diárias, em casa, Matheus mergulhava nos livros - tarefa que, para ele, não era nem um pouco difícil, já que sempre gostou de ler . "A bagunça do quarto dele era de papéis e rascunhos", lembra a mãe-coruja, Miriam de Aquino. "O único motivo que fazia a gente brigar era quando, por engano, eu jogava alguma anotação dele fora", completa a irmã mais nova, Mayra de Aquino, de 14 anos.
O gosto pelos estudos vem do sangue e do incentivo da família, que Matheus considera fundamental. O pai, recorda, era o único da família a possuir formação técnica, numa época em que faculdade era exclusiva para os mais bem providos financeiramente. "Ele foi um grande exemplo para mim e, sem o apoio deles, eu não teria conseguido chegar aonde cheguei", diz ao lembrar-se de todas as "marmitas" preparadas pela mãe, dos almoços na casa da avó entre os turnos de aulas e até mesmo do macarrão instantâneo que a irmã preparava para ele enquanto ele estudava. Mas a família passou também por momentos difíceis, principalmente quando o pai ficou desempregado por dois anos e meio. Na época, a mãe, que havia casado aos 16 anos e desde então se dedicava aos filhos, mudou sua rotina e começou a trabalhar fora como vendedora, profissão que exerce até hoje.
Maturidade
Engana-se quem pensa que a vida de Matheus é feita apenas de letras, números e fórmulas. Além de estudar muito, o jovem encontra ainda tempo para realizar outra atividades típicas da juventude: ele namora, trabalha, frequenta a igreja e ainda faz amizade por todo o lugar que passa. "Pessoas que eu nem conheço perguntam dele, porque ele tem o cuidado de cumprimentar todo mundo e mantém um respeito especial com as pessoas mais velhas", diz a mãe. Aos 13 anos, o garoto deixou de participar do grupo de escoteiros que frequentava a passou a trabalhar com o tio, numa loja de instrumentos musicais, tudo para ajudar a família no momento em que o pai ficou desempregado.
O discurso, porém, é mesmo de gente grande. "A alegria de passar no vestibular é maior que todo o sacrifício que eu tenha passado", fala ao lembrar da emoção que sentiu ao ler a palavra "aprovado" na classificação da USP. "Foi uma grande surpresa, minhas pernas chegaram a ficar bambas", comenta Miriam. Para Matheus, a aprovação é uma prova de que é possível conquistar seus sonhos com força de vontade. "Infelizmente, a educação não é valorizada no nosso País, mas o aluno de escola pública precisa saber que depende dele se dedicar e aproveitar as oportunidades", diz, em tom de conselho.
Sonho antigo
Matheus sempre enxergou além das oportunidades e desde criança se preocupava com o futuro. O estudante cursou as primeiras séries do ensino fundamental no Serviço Social da Indústria (Sesi), numa vaga disputada por sorteio com outros filhos de metalúrgicos, assim como ele. Aos 10 anos, porém, ele tomou uma decisão com visão a longo prazo. Ele pediu à mãe que o transferisse do atual colégio para uma escola estadual, para que pudesse usar, no futuro, o acréscimo como estudante de escola pública nos vestibulares. "É o aluno quem faz a escola", disse como argumento para convencer a mãe.
Depois disso, estudou até a 8ª série no escola estadual Júlio Prestes de Albuquerque, o Estadão. "Meu objetivo sempre foi estudar em universidade estadual ou federal", ressalta ele, que considera o ingresso em instituições públicas de ensino uma forma de valorizar os estudos. "Para passar em pública, a gente precisa se dedicar bastante, e eu sempre disse para os meus pais que eu não deixaria eles gastarem um centavo comigo na faculdade", declara. A mãe lembra ainda da época em que o prédio da UFSCar estava sendo construído me Sorocaba. "Ele era penas uma criança, mas nós passávamos na frente e falávamos que ele ia estudar lá".
Próximo passo
Apesar de ter prestado também vestibular para os cursos de Química (Unesp) e Engenharia Química (Unicamp), Matheus optou por estudar Economia, para o qual foi aprovado na USP e UFSCar. O destino escolhido foi o mais longo, para a tristeza da mãe, que sempre acompanhou os passos do filho bem de perto. "Mesmo assim, estou dando apoio total para que ele vá além", menciona emocionada. "Me interessei mais por esse curso pelo aspecto social, onde enxergo uma forma de retribuir toda a ajuda que recebi durante meus estudos", fala o calouro. A USP ocupou em 2013 pela terceira vez consecutiva o primeiro lugar no ranking das melhores universidades da América Latina, no levantamento realizado pela QS Quacquarelli Symonds University Rankings, uma organização internacional de pesquisa educacional que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação.
Aprovação é orgulho para ex-professores
Matheus sempre se destacou entre os alunos onde estudou. É o que lembra a professora de história Sílvia Mufald, para quem a aprovação do jovem nos principais vestibulares é motivo de orgulho. "Nós não esperávamos nada de diferente vindo dele, pois ele sempre foi muito dedicado aos estudos", conta. A professora deu aulas para o jovem há três anos, nas sétima e oitava série, mas até hoje recorda do desempenho e carisma do ex-aluno. "Ele sempre entendeu as coisas muito rápido e guarda as informações com muita facilidade", elogia. "É muito satisfatório saber que ele vai ainda mais longe, alguém que conviveu aqui com a gente", ressalta.
No Estadão, Matheus deixou saudade. Quem é lembrada disso diariamente é a irmã, que hoje cursa o ensino médio lá. "Os professores fazem questão de lembrar que ele foi um aluno excepcional, o porteiro também pergunta dele até hoje", revela. "Eles me ajudaram muito. Quando demonstrei minha vontade de prestar o vestibulinho para o Fernando Prestes, muitos professores iam aos sábado dar aulas de reforço para mim e outros alunos", lembra. Quem lecionou para ele no ensino médio também reagiu com alegria. "Recebi e-mail de professores me parabenizando", finaliza. (Supervisão: Regina Helena Santos)
Notícia publicada na edição de 06/02/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 012 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário